quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Um final feliz


á no ensino, na prática escolar do dia a dia, temas clássicos, perguntas habituais, que tencionam estimular os alunos a exprimirem os seus pensamentos, sentimentos e desejos, de forma oral, escrita ou gráfica e decorativa (para alguns, o embrião da aptidão para a verdadeira arte gráfica).

Uma das perguntas que, normalmente uma vez por ano, eu fazia era a célebre: O que queres ser quando fores grande ou quando fores homem ou quando fores mulher?

Uma das respostas mais devastadoras surgiu-me logo no primeiro ano em que leccionei em Pombal e chegou-me no trabalho de uma menina de dez anos, da quarta classe.

Não guardei o escrito pois sempre devolvi os trabalhos (os desenhos e as composições escritas eram assuntos privados entre mim e cada um dos alunos), depois de corrigidos e classificados. O que vou contar a seguir, guardei-o de cor na memória e dizia mais ou menos assim:

«Quando eu for grande quero ser puta. O meu pai diz que elas são bonitas, ricas e gosta muito delas. Passa grande parte dos serões a ver filmes com elas. A minha mãe não gosta mas a minha prima Luci que parece uma puta e vai casar no Verão, está sempre que lá vai a casa ao colo do meu pai. Eu gostava que ele me pegasse ao colo também a mim mas está sempre a enxotar-me para eu ir brincar para outro lado.

A minha mãe é muito gorda e não liga nada a estas coisas que o meu pai diz. Eu gostava que o meu pai nos dissesse coisas agradáveis e não estivesse sempre a gabar as putas.»

Não eram estas as palavras, textualmente, mas o espírito era este.

Felizmente a rapariga era bastante inteligente, formou-se num dos nossos Institutos Politécnicos, tem um bom emprego, casou-se e tem dois filhos. Lamentavelmente engordou como a mãe.


1 comentário:

Eira-Velha disse...

Mais vale gorda que a dar nele na Fernão de Magalhães...
Relevo desta história uma coisa importante: é a ligação que prevalece entre professores e os alunos. Sei que nem todos querem saber o que se passa a seguir mas os verdadeiros mestres fazem-no ou, pelo menos, tentam.
Assim se avalia o desempenho.
Excelente, meu amigo.