omo ia dizendo, o Ti Manuel do Rio foi para a escola à noite, frequentar o Curso de Alfabetização de Adultos. Ele não tinha, como aliás me confessou, vontade nenhuma de aprender mais, nem completar o Ensino Primário. Julgo até que ele já tinha feito, na idade própria, o exame da quarta classe. Sabia ler e escrever razoavelmente e fazia muito bem contas, enfim, governava-se e governara-se bastante bem, pois, embora vivesse sozinho, tinha bastante de seu. Mas o que ele realmente procurava era uma possível companheira entre as viúvas do curso, que o eram quase todas.
Durante todos os anos que leccionei à noite a maioria das pessoas da turma eram mulheres e viúvas, algumas, havendo despachado já dois maridos e até uma que enviuvara três vezes. Todas elas me confidenciaram que nunca tinham sido tão felizes, nem tão livres, como depois da morte dos maridos. Tomem bem nota disto, cavalheiros casados, que me ledes!
Esta triviúva era a mais velha, a mais tesa psicologicamente, de mais escorreita e desempenada figura delas, e já lá iam oitenta e um Invernos.
Pois havendo eu dito ao Ti Manuel do Rio:
- Sr. Manuel, seja bem-vindo! Eu não tenho nada contra as suas intenções, mas a sala de aula é para ensinar e aprender, por isso, as suas actividades engatadoras guarde-as lá para fora, à saída ou à entrada.
Logo ali me afirmou, que nem se lembrou nunca de prejudicar as aulas, que só vinha pelo convívio e pela companhia e que, se conseguisse aprender mais algumas coisas práticas da vida, ficaria muito satisfeito. E assim foi!
Assim foi até um dia… Ele tinha escolhido um lugar na segunda fila de mesas, atrás da mesa da Senhora Emília, a viúva rebitesa, ao lado da Senhora Albertina à sua direita e à esquerda do João Faria, que também lá andava nesse ano. Na primeira fila, logo em frente à minha secretária e ao quadro, sentava-se a Senhora Alzira, bem perto de mim porque era um pouco surda. Esta Alzira, segundo me disseram, era viúva de um tal de “Mil Ofícios” julgo eu (ver o catálogo de alcunhas pombalenses da ilustre colega, Dra. Maria Luís Brites, que também refere na sua obra, o Manuel do Rio).
Sempre tive alguma dificuldade em fixar as relações de parentesco dos alunos com as famílias da Vila. Cada aluno, principalmente as crianças, interessava-me por si mesmo, pelo que era, pelo que fazia e não pelos dotes, ou menos dotes, da família, tanto financeiros quanto intelectuais.
Pois um dia, já no fim do tempo lectivo, em que, no quadro, tentava explicar à Senhora Júlia como se obtinham e dispunham os vários algarismos numa divisão aritmética simples, oiço o barulho de uma cadeira a arrastar violentamente. Quando me viro, vejo a Senhora Emília com um sapato na mão, tentando apanhar com o tacão, o Senhor Manuel na cabeça. Corro para ela, seguro-lhe o braço, aconselho calma e quero saber o que se está a passar. Dizia ela:
- Este desavergonhado, quem é que ele pensa que eu sou, a convidar-me para ir ali ao café com ele.
Lá lhe fui dizendo que se sentasse, que não era ofensa convidar uma pessoa para tomar café, que o Senhor Manuel não tinha intenção de a ofender. Ao Ti Manuel do Rio fui-lhe lembrando o compromisso de não falar de assuntos alheios aos da aula. Ele pediu-me desculpa, pediu também desculpa à Senhora Emília, (que não lhe ligou nenhuma) que estava de boa-fé e que se ela não queria bastava dizer que não… etc., etc., e o caso ficou por ali.
O mais engraçado foi que logo a seguir dei a aula por terminada e mandei-os sair. A Senhora Emília continuava amuada mas a Alzira, mesmo surda, tinha percebido a intenção do Manuel, aproximou-se dele, a caminho da porta, e ainda a ouvi dizer:
- Ó Ti Manuel, se mantém a oferta eu vou tomar o café consigo.
E não é que foram mesmo?
1 comentário:
Professor, gostei imenso desta "aventura" do Ti Manel do Rio, homem bem intencionado, e da D. Emilia, mulher à moda antiga. Vá lá que ele teve sorte de não levar com sapato... E tudo por causa dum inofensivo e bem intencionado convita para tomar café! Quanto às viúvas que se dizem felizes como nunca depois da morte dos maridos, ouve-se muito disso. O que é certo é que depois arranjam outro porque a solidão é muito triste...
Um abraço!
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