quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Um aluno muito estranho

nquanto ensinei, tentei sempre que, além do programa e mais importante que o programa, os alunos aprendessem normas e valores cívicos que lhes melhorassem a qualidade de viver. Um dos valores que mais me interessava inculcar-lhes era a liberdade e o respeito pelo outro. Assim, nas composições escritas, nos desenhos e outras artes produzidas pelos alunos, só corrigia as regras indispensáveis à norma (ortografia, sintaxe, utilização correcta e segura das várias ferramentas). O conteúdo era sempre livre e intocável – o aluno podia dizer tudo o que quisesse (mesmo mal do professor), podia usar as cores e outros materiais como entendesse. (as árvores podiam ser azuis e a relva vermelha, o artista é quem manda na sua obra!)

Isto ajudou-me a entrar profundamente na psique dos meus alunos e descobri coisas espantosas. Um dos alunos, mais dedicados e de psicologia mais estranha, foi o João Paulo. Era natural de uma aldeia da freguesia do Louriçal. Já tinha andado pelas escolas do Casal da Rola e por Casais de Além e foi meu aluno dois anos, em 83/84 e 84/85, aqui em Pombal. (Naquela altura ainda se reprovava, por isso, foi repetente na quarta classe, neste último ano.)

Uma vez escreveu: «não gosto do meu pai. O meu pai é o homem pior e mais bruto que eu conheço. É tão mau que matou a nossa burra, à porrada com uma forquilha.»

Muitas outras coisas me revelou, ele e os outros, que talvez mereça a pena escrever neste blogue.

Gostava de ler, ou melhor, de pedir ao aluno, que tivesse escrito bem ou sobre um tema interessante, que lesse à turma o que havia escrito. Só eram lidos textos cujos autores expressamente autorizavam ou queriam ler os seus textos aos outros.

Nunca recebi, ou li, um papel que um aluno ou aluna tivessem escrito a outro. Desde o primeiro ano, numa turma minha, quem interceptasse um papel passado a outro e mo viesse entregar era recambiado para o lugar e ordenava-lhe que o entregasse ao autor.

Queria convencê-los que a correspondência era inviolável e só devia ser lida pelo destinatário. Em minha casa, dizia-lhes eu, ninguém abre as cartas de ninguém. Alguns diziam-me que em suas casas não era assim. Entendo perfeitamente porque os alunos tinham tanta confiança em mim: eles acreditavam, e tinham razão para isso, no que eu dizia. Eu devolvia-lhes igual confiança.


sexta-feira, 17 de outubro de 2008

PERFEIÇÃO


onheci-a quando foi matricular o filho mais velho, recém chegada da Ucrânia.

O seu português já era muito perfeito mas o seu soma era muito mais!

Tinha as proporções de uma estátua grega, o rosto de uma pintura da Renascença, sugerindo as cores suaves da porcelana, do nácar e do aljôfar. Dos cabelos aos pés era como um tecido raro, de textura bem mais suave que a seda verdadeira do oriente.

Para descrever tal obra de arte, todas as mais belas palavras da Língua Portuguesa, são poucas e inadequadas para retratarem tanta beleza.

As nádegas proporcionadas e redondinhas, a cintura estreita, os ombros delicados, o peito um poema de métrica e melodia de acentuação heróica! As pernas esguias e incomensuráveis, torneadas como uma coluna jónica.

E continua por aí, insensível ao desejo que ainda me desperta.



terça-feira, 7 de outubro de 2008

Um engate do Ti Manuel do Rio

omo ia dizendo, o Ti Manuel do Rio foi para a escola à noite, frequentar o Curso de Alfabetização de Adultos. Ele não tinha, como aliás me confessou, vontade nenhuma de aprender mais, nem completar o Ensino Primário. Julgo até que ele já tinha feito, na idade própria, o exame da quarta classe. Sabia ler e escrever razoavelmente e fazia muito bem contas, enfim, governava-se e governara-se bastante bem, pois, embora vivesse sozinho, tinha bastante de seu. Mas o que ele realmente procurava era uma possível companheira entre as viúvas do curso, que o eram quase todas.

Durante todos os anos que leccionei à noite a maioria das pessoas da turma eram mulheres e viúvas, algumas, havendo despachado já dois maridos e até uma que enviuvara três vezes. Todas elas me confidenciaram que nunca tinham sido tão felizes, nem tão livres, como depois da morte dos maridos. Tomem bem nota disto, cavalheiros casados, que me ledes!

Esta triviúva era a mais velha, a mais tesa psicologicamente, de mais escorreita e desempenada figura delas, e já lá iam oitenta e um Invernos.

Pois havendo eu dito ao Ti Manuel do Rio:

- Sr. Manuel, seja bem-vindo! Eu não tenho nada contra as suas intenções, mas a sala de aula é para ensinar e aprender, por isso, as suas actividades engatadoras guarde-as lá para fora, à saída ou à entrada.

Logo ali me afirmou, que nem se lembrou nunca de prejudicar as aulas, que só vinha pelo convívio e pela companhia e que, se conseguisse aprender mais algumas coisas práticas da vida, ficaria muito satisfeito. E assim foi!

Assim foi até um dia… Ele tinha escolhido um lugar na segunda fila de mesas, atrás da mesa da Senhora Emília, a viúva rebitesa, ao lado da Senhora Albertina à sua direita e à esquerda do João Faria, que também lá andava nesse ano. Na primeira fila, logo em frente à minha secretária e ao quadro, sentava-se a Senhora Alzira, bem perto de mim porque era um pouco surda. Esta Alzira, segundo me disseram, era viúva de um tal de “Mil Ofícios” julgo eu (ver o catálogo de alcunhas pombalenses da ilustre colega, Dra. Maria Luís Brites, que também refere na sua obra, o Manuel do Rio).

Sempre tive alguma dificuldade em fixar as relações de parentesco dos alunos com as famílias da Vila. Cada aluno, principalmente as crianças, interessava-me por si mesmo, pelo que era, pelo que fazia e não pelos dotes, ou menos dotes, da família, tanto financeiros quanto intelectuais.

Pois um dia, já no fim do tempo lectivo, em que, no quadro, tentava explicar à Senhora Júlia como se obtinham e dispunham os vários algarismos numa divisão aritmética simples, oiço o barulho de uma cadeira a arrastar violentamente. Quando me viro, vejo a Senhora Emília com um sapato na mão, tentando apanhar com o tacão, o Senhor Manuel na cabeça. Corro para ela, seguro-lhe o braço, aconselho calma e quero saber o que se está a passar. Dizia ela:

- Este desavergonhado, quem é que ele pensa que eu sou, a convidar-me para ir ali ao café com ele.

Lá lhe fui dizendo que se sentasse, que não era ofensa convidar uma pessoa para tomar café, que o Senhor Manuel não tinha intenção de a ofender. Ao Ti Manuel do Rio fui-lhe lembrando o compromisso de não falar de assuntos alheios aos da aula. Ele pediu-me desculpa, pediu também desculpa à Senhora Emília, (que não lhe ligou nenhuma) que estava de boa-fé e que se ela não queria bastava dizer que não… etc., etc., e o caso ficou por ali.

O mais engraçado foi que logo a seguir dei a aula por terminada e mandei-os sair. A Senhora Emília continuava amuada mas a Alzira, mesmo surda, tinha percebido a intenção do Manuel, aproximou-se dele, a caminho da porta, e ainda a ouvi dizer:

- Ó Ti Manuel, se mantém a oferta eu vou tomar o café consigo.

E não é que foram mesmo?