uando o ti Manuel do Rio me entrou pela sala da Escola Primária de Pombal, onde eu leccionava um curso nocturno de alfabetização, houve um grande sururu. Em que ano estaríamos? Num dos últimos oitentas mas não consigo precisar qual.
Os cursos de alfabetização tiveram variadíssimos nomes e objectivos: Começaram numa espécie de pré-história em 1952, ainda eu andava no Liceu. Em 1963 ainda os apanhei num bairro camarário da periferia de Lisboa e até 1971 ou 72, era nomeado quatro vezes por ano, como Delegado do Ministério da Educação, para o júri de exame dos alunos militares dos cursos de alfabetização do Regimento da Pontinha. Na minha escola acumulava com o ensino diurno, o nocturno, pelo que recebia mais quinhentos escudos sujeitos a descontos. (2,50 €)
Aqui em Pombal esta actividade adoptou o pomposo nome de Ensino Recorrente e fui professor destacado nesta modalidade de 1985/86 até 1990/91.
Pombal sempre foi o maior em alguns indicadores estatísticos a nível nacional: - maior taxa de analfabetismo; maior taxa de alcoolismo feminino, maior taxa de doença de Hansen, etc. Verdade seja dita que isto deu trabalho a muita gente de fora que aqui se foi fixando e hoje pode constatar-se que se fizeram progressos notáveis…
Os cursos de alfabetização eram uma actividade bastante trabalhosa mas simultaneamente lúdica e mesmo gratificante. Quando algum homem ou mulher conseguia a sua aprovação no exame da 4.ª classe e assim podia concorrer, nem que fosse ao quadro de cantoneiros de limpeza da câmara, era uma grande alegria. Orgulho mesmo, tanto para mim e para os outros professores que labutavam em algumas aldeias do município, como para os alunos que tinham finalmente ultrapassado o que consideravam uma grande dificuldade. Pessoas de muita idade, principalmente mulheres; homens e mulheres de idade mediana e até jovens, principalmente de etnia cigana que não tinham conseguido a aprovação na escola diurna, eram os nossos principais utentes. Aqui em Pombal um grupo de senhoras com idades compreendidas entre os sessenta e muitos e os oitenta e poucos, formavam uma espécie de equipa de veteranos, que mais que aprender (chegava-lhes praticamente saber assinar o seu nome) buscavam um convívio, uma companhia durante cerca de duas horas e meia, de segunda a sexta, que de outra maneira nunca poderia usufruir.
Bem, o Manuel do Rio tem de ficar para amanhã.
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