segunda-feira, 11 de abril de 2011

LER & CONTAR HISTÓRIAS

A avó Emília nasceu em 1881. Conheceu (aclamou-os, talvez, no Passeio Público, da Avenida) o Rei D. Carlos, o Príncipe D. Luís Filipe e o Príncipe, depois Rei D. Manuel II.
Não me contava histórias, lia-me histórias. Lembro-me das aventuras de "Os Cavaleiros da Távola Redonda", de "As Histórias de Chaucer" e da "História do Menino da Mata e do seu Cão Piloto", entre outras. Mais tarde, entrei para a escola e comecei, eu próprio, a ler. Ensinou-me a ler, na belíssima escola da Calçada da Tapada, em Lisboa o senhor professor Prudêncio, negro cabo-verdiano, infatigável contador de histórias que punha os alunos a contarem histórias uns aos outros e incentivava-nos a inventá-las, ali, na sala, à medida que as contávamos.
Raramente escrevi (por qualquer razão que não entendo muito bem, aprendi a ler quase que instantaneamente e só três anos depois comecei a escrever com algum desembaraço), mas ao longo de toda a minha vida docente, improvisei, perante os meus alunos, tudo aquilo que quis e necessitei para os levar a produzirem os seus próprios textos...
A minha fase de aprendizagem da leitura ocorreu no ano lectivo de 1945/46. No final da minha 1.ª Classe, o senhor professor adoeceu (ainda o visitámos, algumas vezes, na sua casa, na Rua da Indústria, junto à Escola Industrial Marquês de Pombal) e apareceu uma D. Constância que tomou conta de nós e nos passou para a 2.ª Classe.
Em 1946/47, 1947/48 e 1948/49, até ao Natal, fui aluno do professor Carvalho, o director da escola, que nos entretinha horas seguidas a "cantar" a tabuada, sozinhos, na sala de aula, enquanto ele ia para o seu gabinete namorar a empregada Leonor. De vez em quando, vinha à sala castigar os alunos que andavam na brincadeira. Dava-nos bofetadas fenomenais que muitas vezes nos projectavam para fora das carteiras. Era músico, tocava violino numa orquestra de Lisboa e a sua melhor qualidade era, aos Sábados, em vez das evoluções da Mocidade Portuguesa, nos pôr a cantar, a recitar poesias, a representar ou a ouvir música, que ele tocava no órgão da escola ou no seu violino.
No dia 10 de Junho de cada ano lectivo, vestíamos fardas da Mocidade Portuguesa, que pertenciam à escola, e íamos ao Estádio Nacional, no Dafundo, marchar e assistir aos desfiles e ginástica das outras escolas e liceus de Lisboa. Era um dia de festa, íamos fardados e formados, a marchar, da escola até à estação dos comboios eléctricos de Alcântara onde apanhávamos um especial que nos levava até ao Estádio. Lá, davam-nos um saco com o farnel e voltávamos à tarde, depois das cerimónias, para a escola e depois para nossas casas. A farda ia connosco para as nossas mães a lavarem e a passarem a ferro e ser depois devolvida à escola.
No Verão de 1948 correu que a Escola da Tapada ia fechar e, em Outubro (a escola começava sempre, impreterivelmente, no dia 7 de Outubro) fomos frequentar a recém construída Escola do Alto de S. Amaro. Era mais longe de minha casa, tínhamos de almoçar na cantina da escola, tinha pátios de recreio muito grandes mas eu gostava mais da escola velha que nunca chegou a fechar. Ainda hoje funciona.
Nas férias do Natal de 1948, mudámos de casa para o Bairro de Alvalade e fui acabar a 4.ª classe, na Escola do Campo Grande, que funcionava no 1.º andar do Edifício da Esquadra de Polícia do Campo Grande, quase defronte da Estátua que evoca a Guerra Peninsular.
Resumo escolar do período a que se refere este texto:
Ano lectivo 1945/46 1.ª classe Escola da Tapada.
Ano lectivo 1946/47 2.ª classe Escola da Tapada.
Ano lectivo 1947/48 3.ª classe Escola da Tapada.
Ano lectivo 1948/49 4.ª classe Escola do Alto de Santo Amaro, até ao final do 1.º Período.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

OUTRA VEZ OS MENINOS DE VIDRO

A noção de Bem e de Mal não é inata. Já vários filósofos e psicólogos se debruçaram sobre o assunto e parece ser causa do aparecimento da consciência moral, um processo de condicionamento reflexo, induzido pelas pressões sociais.

Ninguém nasce automaticamente bom, da mesma maneira que ninguém nasce automaticamente mau, nem completamente vazio. Talvez se nasça como um disco de gravação de dados, em que se pode gravar mas só de acordo com a qualidade e a capacidade do suporte físico. A hereditariedade fornece a qualidade e a capacidade e a genética executa a pré-formatação do dispositivo útil que vai armazenar e processar a informação introduzida pela sociabilização.

Foi a minha cadelita que me levou a este tipo de comentário. Quer dizer, os próprios animais conseguem ter noção do bem e do mal se forem educados para isso: - Quando defeca fora do lugar próprio que lá em casa existe, ela inflige a si própria a pena que fizemos seguir a essa infracção. Vai voluntariamente para a sua cesta de onde não sai senão depois de obter o perdão da falta. Isto, em meu entender, quer dizer que os jovens e as crianças mal educadas que aparecem nas escolas, chegam lá naquele estado, por falta de cuidados educativos – que inclui um sistema de recompensas e castigos – por parte das famílias.

Os tais bebés «nossos tesouros», iniciados pelos tolos «doutores sepoques» e quejandos, geraram os meninos de vidro mal criados a que eufemisticamente chamamos, em eduquês moderno, crianças hiper-activas.

Não nego que haja crianças hiper-activas verdadeiras, mais difíceis de educar, mas educáveis em condições e com metodologias apropriadas. O que não acredito é que todos os meninos denominados dessa maneira não sejam só e apenas crianças mal-educadas.

Se se doma um tigre que traz genes assassinos à nascença, porque não há-de domar-se um «animal homem» que seja portador desses mesmos genes?

Creio ser só uma questão de técnica que devia ser utilizada em estabelecimentos especiais, quando o ambiente familiar falhasse ou fosse insuficiente.

O Recondicionamento social é possível se não houver pruridos preconceitosos do politicamente correcto, que estão a lançar a Humanidade na ladeira sem retorno da degenerescência.

Não será já, a actual crise social, económica, financeira e politica, um sintoma dessa enfermidade?

terça-feira, 25 de janeiro de 2011