quinta-feira, 16 de abril de 2015

OS CAMINHOS DA ESCOLA, NO PÚBLICO DE HOJE

http://www.publico.pt/n1692595

A característica mais evidente de qualquer sala de aula nas nossas escolas é a diversidade dos alunos. Como é reconhecido, esta diversidade decorre, entre outros factores, da obrigatoriedade escolar de há muito instituída e progressivamente alargada, de políticas educativas que procuram implantar princípios de educação inclusiva, da mobilidade dos cidadãos ou, naturalmente das óbvias diferenças individuais entre os alunos.
Durante algumas décadas, apesar de alguns sobressaltos, hesitações, dificuldades, resistências ou falta de recursos pensou-se e tentou-se estruturar uma escola que pudesse ser capaz de diferenciar, de incluir, de acomodar diferenças entre os alunos a escola. Realizaram-se progressos notáveis mas muito estava ainda por fazer.
Escrevo estava porque, entretanto, começaram a soprar ventos de mudança. De uma escola que se procurava orientar numa perspectiva de diferenciação, não responder de forma igual ao que é diferente, temos vindo a assistir a uma reorientação da escola assente numa ideia de "normalização" que, do meu ponto de vista e alguns indicadores sugerem, corre o sério risco de produzir exclusão.
É também claro que a exclusão escolar, educativa, representa quase sempre a primeira etapa da exclusão social em comunidades cada vez mais desenvolvidas e exigentes na qualificação dos cidadãos.
Na verdade, esta visão de "normalização" é estruturante de boa parte da política educativa. Traduz-se de forma substantiva na hipervalorização da avaliação externa, apesar de necessária, em detrimento da avaliação de natureza mais formativa ou na recusa de uma verdadeira autonomia das escolas que lhes permita responder com a organização e os recursos adequados às especificidades contextuais de natureza social, cultural ou educativa.
A OCDE tem alertado em sucessivos documentos para este caminho mas parece estar instalada a ideia de que os exames, só por existirem, promovem qualidade, o que, evidentemente, não acontece, antes pelo contrário, promovem uma retenção que não contém potencial de melhorias como bem assinalou o CNE em relatório recente e os últimos resultados dos estudos comparativos internacionais parecem indiciar.
Em consequência desta "examocracia" em que se tem transformado o nosso sistema educativo, sobrevalorizando a pressão para resultados, constrói-se um processo educativo de "normalização", burocratizado e pouco flexível levando, por exemplo a que muitos alunos nem sequer sejam sujeitos aos exames pois, provavelmente, os seus resultados comprometeriam objectivos institucionais que são "premiados", por assim dizer, pelo MEC numa estranha opção política.
Neste contexto, é peça importante a organização curricular, altamente prescritiva, extensa e burocratizada, assente em metas curriculares também extensas e, dizem os especialistas, inadequadas, que fazem correr o sério risco de que o ensino se transforme na gestão de uma espécie de "check list" das metas estabelecidas implicando a impossibilidade de acomodar as diferenças, óbvias, entre os alunos, os seus ritmos de aprendizagem, criando ambientes escolares pouco amigáveis, por assim dizer, para crianças que experimentem algum tipo de dificuldade.
Dito de outra maneira, a escola estará a sentir progressiva dificuldade em acomodar as diferenças pois deve acrescentar-se a insuficiência de recursos docentes e técnicos fruto da política do MEC que dificulta sobremaneira a existência de dispositivos de apoio ao trabalho de alunos e professores.
Assim, vítimas de uma espécie de "darwinismo" educativo, vão saindo das salas de aula os "menos dotados", os "preguiçosos", os "sem jeito para a escola", que são remetidos, "empurrados" para espaços guetizados ou vias educativas consideradas de segunda, dentro ou fora das escolas.
Neste contexto inquietante em que a maioria dos professores, apesar do MEC, tenta reinventar diariamente o sentido da sua missão e acolher todos os alunos parece-me na verdade imprescindível repensar desta ideia de "normalização" que nos poderá sair demasiado cara.
No entanto, como sempre, mantenho algum optimismo na capacidade que enquanto comunidade tenhamos de caminhar noutro sentido, diferenciar, responder com exigência, com qualidade e de forma diferenciada ao que é ... diferente.
Gostava que o meu neto viesse a frequentar uma escola para todos, com equidade e com qualidade, mesmo consciente das dificuldades, dos sucessos e fracassos inerentes à acção educativa, nas escolas, tal como nas famílias.
 Doutorado em Estudos da Criança

segunda-feira, 11 de abril de 2011

LER & CONTAR HISTÓRIAS

A avó Emília nasceu em 1881. Conheceu (aclamou-os, talvez, no Passeio Público, da Avenida) o Rei D. Carlos, o Príncipe D. Luís Filipe e o Príncipe, depois Rei D. Manuel II.
Não me contava histórias, lia-me histórias. Lembro-me das aventuras de "Os Cavaleiros da Távola Redonda", de "As Histórias de Chaucer" e da "História do Menino da Mata e do seu Cão Piloto", entre outras. Mais tarde, entrei para a escola e comecei, eu próprio, a ler. Ensinou-me a ler, na belíssima escola da Calçada da Tapada, em Lisboa o senhor professor Prudêncio, negro cabo-verdiano, infatigável contador de histórias que punha os alunos a contarem histórias uns aos outros e incentivava-nos a inventá-las, ali, na sala, à medida que as contávamos.
Raramente escrevi (por qualquer razão que não entendo muito bem, aprendi a ler quase que instantaneamente e só três anos depois comecei a escrever com algum desembaraço), mas ao longo de toda a minha vida docente, improvisei, perante os meus alunos, tudo aquilo que quis e necessitei para os levar a produzirem os seus próprios textos...
A minha fase de aprendizagem da leitura ocorreu no ano lectivo de 1945/46. No final da minha 1.ª Classe, o senhor professor adoeceu (ainda o visitámos, algumas vezes, na sua casa, na Rua da Indústria, junto à Escola Industrial Marquês de Pombal) e apareceu uma D. Constância que tomou conta de nós e nos passou para a 2.ª Classe.
Em 1946/47, 1947/48 e 1948/49, até ao Natal, fui aluno do professor Carvalho, o director da escola, que nos entretinha horas seguidas a "cantar" a tabuada, sozinhos, na sala de aula, enquanto ele ia para o seu gabinete namorar a empregada Leonor. De vez em quando, vinha à sala castigar os alunos que andavam na brincadeira. Dava-nos bofetadas fenomenais que muitas vezes nos projectavam para fora das carteiras. Era músico, tocava violino numa orquestra de Lisboa e a sua melhor qualidade era, aos Sábados, em vez das evoluções da Mocidade Portuguesa, nos pôr a cantar, a recitar poesias, a representar ou a ouvir música, que ele tocava no órgão da escola ou no seu violino.
No dia 10 de Junho de cada ano lectivo, vestíamos fardas da Mocidade Portuguesa, que pertenciam à escola, e íamos ao Estádio Nacional, no Dafundo, marchar e assistir aos desfiles e ginástica das outras escolas e liceus de Lisboa. Era um dia de festa, íamos fardados e formados, a marchar, da escola até à estação dos comboios eléctricos de Alcântara onde apanhávamos um especial que nos levava até ao Estádio. Lá, davam-nos um saco com o farnel e voltávamos à tarde, depois das cerimónias, para a escola e depois para nossas casas. A farda ia connosco para as nossas mães a lavarem e a passarem a ferro e ser depois devolvida à escola.
No Verão de 1948 correu que a Escola da Tapada ia fechar e, em Outubro (a escola começava sempre, impreterivelmente, no dia 7 de Outubro) fomos frequentar a recém construída Escola do Alto de S. Amaro. Era mais longe de minha casa, tínhamos de almoçar na cantina da escola, tinha pátios de recreio muito grandes mas eu gostava mais da escola velha que nunca chegou a fechar. Ainda hoje funciona.
Nas férias do Natal de 1948, mudámos de casa para o Bairro de Alvalade e fui acabar a 4.ª classe, na Escola do Campo Grande, que funcionava no 1.º andar do Edifício da Esquadra de Polícia do Campo Grande, quase defronte da Estátua que evoca a Guerra Peninsular.
Resumo escolar do período a que se refere este texto:
Ano lectivo 1945/46 1.ª classe Escola da Tapada.
Ano lectivo 1946/47 2.ª classe Escola da Tapada.
Ano lectivo 1947/48 3.ª classe Escola da Tapada.
Ano lectivo 1948/49 4.ª classe Escola do Alto de Santo Amaro, até ao final do 1.º Período.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

OUTRA VEZ OS MENINOS DE VIDRO

A noção de Bem e de Mal não é inata. Já vários filósofos e psicólogos se debruçaram sobre o assunto e parece ser causa do aparecimento da consciência moral, um processo de condicionamento reflexo, induzido pelas pressões sociais.

Ninguém nasce automaticamente bom, da mesma maneira que ninguém nasce automaticamente mau, nem completamente vazio. Talvez se nasça como um disco de gravação de dados, em que se pode gravar mas só de acordo com a qualidade e a capacidade do suporte físico. A hereditariedade fornece a qualidade e a capacidade e a genética executa a pré-formatação do dispositivo útil que vai armazenar e processar a informação introduzida pela sociabilização.

Foi a minha cadelita que me levou a este tipo de comentário. Quer dizer, os próprios animais conseguem ter noção do bem e do mal se forem educados para isso: - Quando defeca fora do lugar próprio que lá em casa existe, ela inflige a si própria a pena que fizemos seguir a essa infracção. Vai voluntariamente para a sua cesta de onde não sai senão depois de obter o perdão da falta. Isto, em meu entender, quer dizer que os jovens e as crianças mal educadas que aparecem nas escolas, chegam lá naquele estado, por falta de cuidados educativos – que inclui um sistema de recompensas e castigos – por parte das famílias.

Os tais bebés «nossos tesouros», iniciados pelos tolos «doutores sepoques» e quejandos, geraram os meninos de vidro mal criados a que eufemisticamente chamamos, em eduquês moderno, crianças hiper-activas.

Não nego que haja crianças hiper-activas verdadeiras, mais difíceis de educar, mas educáveis em condições e com metodologias apropriadas. O que não acredito é que todos os meninos denominados dessa maneira não sejam só e apenas crianças mal-educadas.

Se se doma um tigre que traz genes assassinos à nascença, porque não há-de domar-se um «animal homem» que seja portador desses mesmos genes?

Creio ser só uma questão de técnica que devia ser utilizada em estabelecimentos especiais, quando o ambiente familiar falhasse ou fosse insuficiente.

O Recondicionamento social é possível se não houver pruridos preconceitosos do politicamente correcto, que estão a lançar a Humanidade na ladeira sem retorno da degenerescência.

Não será já, a actual crise social, económica, financeira e politica, um sintoma dessa enfermidade?

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Boas Festas

Nenhum menino é bom só porque é. É bom só pelo muito que se espera dele.

sábado, 21 de novembro de 2009

Quando eu comecei a viver Pombal

Começou por ser um comentário no "FARPAS", mas como se refere à minha vida docente, trouxe-o para aqui. É o lugar deste texto.

Quanto aos olivais, ao rio e ao túnel da ribeira, eu ainda os conheci quando comecei a leccionar em Pombal. Os meus alunos foram os meus cicerones: jogaram à bola comigo no estádio da palha, mostraram-me como era divertido banharem-se no rio, e levaram-me na aventura de vir até ao Arunca por debaixo da cidade. Um grande abraço de louvor e amizade a toda essa minha turma (as raparigas também alinhavam) de 1983/84.

Ainda hei-de falar de gente desta turma.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Quem diria? Eu também andei na Escola.

Não consigo encontrar a foto da minha classe, esta era a do meu irmão, numa das mais lindas escolas de Lisboa: a da Calçada da Tapada. O professor da foto era o Senhor Professor Leitão. O meu irmão, melhor aluno da turma, sentava-se à direita do Sr. Professor.
Já morreram mais de metade, incluindo o meu irmão e o Senhor Professor Leitão. Paz às suas almas!